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domingo, 15 de janeiro de 2012

Feliz e sorridente, Fred quer mais do mesmo: 'Europa não me seduz mais'

 

Capitão revela plano de carreira totalmente voltado para o Flu, reclama das 'picuinhas' do futebol e responde Renato Gaúcho: 'Ele não me conhece'

A dois meses de completar três anos de Fluminense, Frederico Chaves Guedes já viveu de quase tudo nas Laranjeiras. Foi artilheiro, vilão, heroi, salvador e perseguido. Pensou em sair após se desentender com torcedores, mas decidiu ficar. E, aos 28 anos, parece estar perto de atingir o auge de sua técnica. A fase espetacular no segundo turno do último Campeonato Brasileiro, quando marcou 19 gols em apenas 15 jogos, com média de 1,27 por partida, só motiva mais o camisa 9 em busca de um 2012 ainda melhor. O sorriso fácil não mente. A felicidade está estampada no rosto daquele que carrega no braço direito a braçadeira de capitão do Tricolor e nas costas a responsabilidade de conduzir o clube ao lugar mais alto da Libertadores. Título inédito capaz de coroar de vez a história de um craque que, apesar de ser mineiro e cruzeirense, garante ter nascido para jogar no Fluminense e morar no Rio de Janeiro.
- Sinceramente? A Europa não me seduz mais. Tenho um projeto de carreira totalmente voltado para o Fluminense. É um clube que me trata muito bem, como ídolo, me dá muito carinho e muito apoio. Tenho a confiança de toda a diretoria. Tenho o Celso Barros, o patrocinador que está comigo sempre também, o que é muito importante. Tenho a torcida... Então hoje o meu intuito é ficar nas Laranjeiras, virar ídolo, fazer história com gols e com títulos. Lógico que sou profissional e estou sempre ouvindo as propostas que chegam, mas a Europa não me seduz mais - revelou Fred


Confira abaixo a primeira entrevista completa do capitão tricolor na temporada 2012:


O Fred do segundo turno do Campeonato Brasileiro de 2011 foi o Fred em seu nível máximo? Ou dá para ser ainda melhor em 2012?

Eu estava muito bem, mas acho que foi resultado do crescimento da equipe inteira. Sou um jogador que dependo da minha equipe, preciso de bolas. Quando o time está bem e eu estou em campo, naturalmente os gols saem. E com isso a confiança aumenta. Foi isso que aconteceu. Eu trabalho sempre para estar naquele nível, fazendo gols, dando passes... Aliás, foram várias assistências no ano passado. A equipe estava jogando em minha função até para eu criar as jogadas. Isso foi muito bacana.

Vira e mexe surgem notícias de que existem clubes interessados em você. Até hoje, o que teve de verdade nisso? A Europa ainda te seduz?

Foram muitas propostas, mas sempre tive a minha cabeça voltada para o Fluminense. Sinceramente? A Europa não me seduz mais. Tenho um projeto de carreira totalmente voltado para o Fluminense. É um clube que me trata muito bem, como ídolo, me dá muito carinho e muito apoio. Tenho a confiança de toda a diretoria. Tenho o Celso Barros, o patrocinador que está comigo sempre também, o que é muito importante. Tenho a torcida... Então hoje o meu intuito é ficar nas Laranjeiras, virar ídolo, fazer história com gols e com títulos. Lógico que sou profissional e estou sempre ouvindo as propostas que chegam, mas, sinceramente, a Europa não me seduz mais.

Você disse que ainda não se considera ídolo do Fluminense. Já são três anos de casa, muitos gols, identificação com a torcida e um título que o clube não conquistava há 26 anos. O que falta?

Isso vai chegar ao longo dos anos. A cada temporada tenho que mostrar algo diferente. Em 2009 foi bom, mas ano passado foi melhor. De 2010 nem se fala, por causa do título brasileiro. Espero que 2012 seja ainda mais proveitoso. Tenho que melhorar cada vez mais, conquistar o máximo possível. Temos mais uma chance na Libertadores, que não é fácil. Todos os participantes vão entrar para ganhar. Acho que seria um feito para eternizar todos os jogadores. Mas tem que ser devagar, ao longo dos anos, passo a passo.

Vendo de fora, parece que você, mesmo mineiro e cruzeirense, nasceu para jogar no Fluminense e morar no Rio de Janeiro. Concorda?

Plenamente. Eu já me adaptei muito bem à cidade. Quando cheguei não gostava de tudo, tinha coisas que eu poderia fazer e não dava. Mas agora já consegui encaixar tudo, tive a leitura certa das situações. Já sei fazer tudo na hora certa, sei aproveitar bem o meu momento no clube, o carinho que o torcedor me dá, a cidade... Isso é bom, né? Quando você consegue ter a sua vida pessoal bem estruturada e a família vivendo bem na cidade, e ainda estar em sua segunda casa, que é o clube com um ambiente maravilhoso, tudo está ótimo. Hoje eu já me sinto mais um carioca. Na minha cabeça eu sempre tive o pensamento de morar em Belo Horizonte após o fim da carreira. Mas hoje já penso em ter um apartamento no Rio e uma casa em Minas. Vou me dividir entre as duas cidades.

O que acha do lado glamouroso que o futebol proporciona? Compensa a exposição a que é você é submetido no dia a dia?

Quando falam da minha vida pessoal eu não gosto muito. Prefiro que falem do meu treino, do meu jogo, sejam críticas ou elogios. Não gosto de ficar exposto, mas acabo me acostumando. É o ônus de ser famoso. Quando você sonha em ser jogador, sonha em ter condição financeira boa, em ser reconhecido - e isso eu já conquistei. É claro que tem uma hora que me incomoda um pouco, mas não chega a me afetar tanto. Sei separar bem as coisas. Trato todo mundo bem e sou bem tratado. É tranquilo.

Acha que o futebol hoje está mais chato? Quer qualquer coisa que você fala de diferente já gera uma polêmica enorme?

Estava conversando isso com o pessoal outro dia. Foi divulgado um vídeo do Thiago Neves recentemente. Passamos vários dias juntos no fim do ano aqui em Angra dos Reis. Eu, ele, Marquinho, Rafael Moura, as famílias... Isso é normal. Por trás dos jogadores existe uma amizade. E se falarmos alguma coisa que for mais sincera todo mundo já cria polêmica. Não tem nada a ver. O futebol está cheio de picuinha. As coisas precisam ser tratadas com mais naturalidade. Foi um vídeo de brincadeira. Estávamos conversando e alguns têm a opinião que o vídeo foi desnecessário. Mas qual o problema da gravação? Estávamos de férias, brincando, nos divertindo...

Na verdade o vídeo só mostrou o bom ambiente dele com o elenco do Fluminense...

Mas como isso cai para a torcida? E o que os torcedores do Flamengo acham? Espero então que o vídeo tenha sido veiculado apenas visando à torcida do Fluminense. Por que estamos o esperando. Thiago vai ser muito bem recebido no clube. Mesmo que ele não fosse querido como pessoa, todos iriam respeitá-lo, afinal de contas estamos falando de um dos melhores jogadores em atividade no Brasil. As portas das Laranjeiras estão abertas pra ele. Thiago também é ídolo do Fluminense. Fez história e tem identificação com o clube.

Você tem 28 anos e já é um jogador experiente, com passagem pela Europa e uma Copa do Mundo no currículo. Consegue estabelecer um limite entre o direito à diversão de um atleta e a responsabilidade com o trabalho, que exige sempre forma física em alto nível?

Sei, sim. Lógico que depois de tudo que eu passei amadureci muito e hoje evito várias coisas. Sei o limite do meu corpo, nunca fiz loucuras, mas evito a sobrecarga, o desgaste. Mas dá para fazer tudo. Antes desta entrevista eu fiz musculação, joguei cinco partidas de futevôlei e vou treinar à tarde. Dá para conciliar as coisas. Jogar, sair para jantar, para dar uma curtida... Consigo fazer tudo o que eu quero na boa.

Você se considera uma pessoa culta? Gosta de um bom restaurante, um bom vinho, de ir ao teatro, de ler um livro?

Leio muito a Bíblia. Tenho vários livros na minha casa, mas leio 30 páginas e acabo pulando para outro (risos). Não consigo me entreter muito com um só livro. Trouxe três livros para a pré-temporada, mas o que eu mais gosto mesmo é a Bíblia. Leio sempre, todos os dias, me atrai, me prende muito tempo, não me dá sono. Vou sempre no teatro. Gostaria de ver a peça do Tim Maia. Ao cinema também vou direto. A restaurantes, vou três vezes por semana. Gosto do Victoria, no Jockey, do Alessandro & Frederico, do Manekineko... Estou sempre variando. Vou muito a bares, gosto muito. Onde eu moro, em Ipanema, há muitos.

Qual o futuro depois da carreira como jogador? Pretende ser dirigente, treinador ou quer aproveitar a vida?

Se eu falar que eu vou continuar no futebol a minha família vai apelar (risos). Vão pedir para eu curtir mais eles, ter mais tempo. Tenho meus negócios com meu irmão, fora do futebol, e terei de dar atenção também. Mas o futebol é a minha vida. Fico trinta dias de férias e já sinto uma falta absurda. Me dou bem em grupo, gosto de desafios... Quando eu parar vou dar uma folga, mas, queira ou não queira, acho que vou acabar voltando para o futebol, que é o que me prende, me atrai, me deixa mais feliz.

O lado dirigente lhe atrai? Porque você costuma indicar jogadores ao Fluminense, como Wagner, Rafael Moura...

Só indico alguém quando conheço, quando já joguei junto, ou observei que o jogador tem boa qualidade e é boa pessoa. Mas nem penso nessa possibilidade agora. Tenho apenas 28 anos e tem muita coisa para rolar ainda.

Qual o tamanho do Fluminense e qual o tamanho do Fred?

Não dá para comparar. O Fluminense é muito maior do que qualquer coisa, uma instituição centenária que está perto de completar 110 anos. Eu sou um jogador, uma peça da engrenagem que quer escrever sua história e ajudar o clube a cresce ainda mais.

O que ficou de lição para você e para o clube após o ano conturbado de 2011, que teve passagens como as saídas de Emerson, Muricy Ramalho e o seu desentendimento com torcedores?

Foram situações complicadas, que atrapalharam o nosso planejamento em 2011. É lógico que no futebol não dá para ter uma matemática exata, de que vai começar assim e terminar assado. Mas se desse para ser dessa maneira... A saída do Muricy foi complicada e deixou o nosso grupo muito aberto. Depois disso aconteceram várias coisas erradas. Respeitar o Muricy é muito fácil, um treinador renomado. Veio o Enderson, que é um baita profissional, mas ainda novo na carreira, e começou a desandar um pouco. E como o grupo estava muito exposto, sempre tem algumas pessoas que são escolhidas para ser os culpados, para levar as porradas...

E sempre estourava no Fred?

Ano passado sim, no retrasado também, 2009 bastante... quase sempre (risos). Mas hoje não. O clube está muito mais organizado, o Celso (Barros, presidente da patrocinadora) está muito mais presente, o Peter (Siemsen, presidente do Fluminense) está organizando muito bem o clube. Houve a chegada do Rodrigo Caetano (diretor executivo de futebol), do Abel Braga (técnico), que tem o grupo inteiro na mão com uma enorme sinceridade, sempre jogando limpo com os jogadores... Eu e o clube aprendemos que ganhar o Campeonato Brasileiro não é tão simples assim. Fizemos um primeiro turno ruim, fomos campeões do segundo e ainda tivemos chance de levantar a taça. Mas os pontos que perdemos no primeiro turno fizeram muita falta.

Voltando a falar do Muricy, boa parte da torcida do Fluminense implica muito com ele desde a saída e até torce contra. Como vê isso?

Acho normal. Torcedor é paixão mesmo. Quando o Muricy rejeitou a Seleção Brasileira para ficar no Fluminense, ele foi idolatrado. Aquela negativa dele para a Seleção afetou o grupo inteiro, elevou a moral, uniu os jogadores. Nesse momento ele era o melhor do mundo. Quando ele saiu o torcedor, lógico, ficou chateado. Nós jogadores também não queríamos a saída dele. Ficamos tristes, mas conhecemos o futebol, o Muricy como homem, e entendemos perfeitamente a situação.

Recentemente, duas pessoas fizeram comentários interessantes sobre você. O Juninho Pernambucano disse à revista "Placar" que o Fred gosta de ser tratado como um jogador importante (por confiar no próprio taco). E o Renato Gaúcho afirmou ao programa "Globo Esporte" que o Fred chegaria mais longe caso se dedicasse mais e treinasse mais. Concorda com esses pontos de vista?

Sobre o Juninho, ele me conhece muito bem. Citou meu caso no Lyon-FRA. Cheguei comprado por um valor alto, estava no auge da minha carreira e fiz dois gols na estreia contra o Mônaco. Na quarta-feira tinha jogo contra o Real Madrid-ESP e eu joguei cinco minutos. Eu jogava uma partida, esperava outro, jogava dois e esperava um, jogava um e esperava dois... E isso para mim não servia. Eu queria jogar. Às vezes era titular e o técnico me tirava com 70 minutos. Eu sabia que naquele tempo restante poderia sair um ou dois gols, podia pintar um pênalti, coisas que ajudam a dar moral ao atacante. Nunca fui a favor disso. Fui várias vezes na sala do técnico para falar sobre isso e nada nunca mudou. A cultura deles é diferente. Eu entendia, mas não aceitava. Sobre o Renato Gaúcho, ele não me conhece para falar isso. Treinei pouquíssimo com ele. Quando ele chegou, estreou naquele jogo contra o Atlético-MG, no Mineirão, pelo Brasileirão 2009. Eu estava com uma dor no adutor e ele me mandou sair. Eu continuei e estourei. Então se fosse para falar de alguma coisa, não poderia ser de dedicação. Essa situação contradiz o que ele disse sobre mim. Eu gostava de treinar e mesmo com dor eu jogava. Hoje aprendi isso. Se der uma dorzinha eu já saio. É melhor ficar fora um jogo do que três meses. Renato conviveu pouco comigo e não tem embasamento para falar isso de mim.

E como anda o coração do Fred? Apaixonado, livre, em busca de um grande amor?

Da minha vida pessoal eu não falo não...

Mas já disse uma vez que não beijava havia nove meses...

(Risos). Aquilo eu falei de brincadeira. Aquela entrevista deu tanta polêmica e por causa de uma brincadeira com o negócio de não beijar. Eu ri depois, mas não colocaram assim na chamada e bombou (risos). Estou tranquilo, solteiro... Bem do jeito que estou. Meu amor maior é minha filha Geovanna, minha família...

Gostou de posar seminu? Não ficou com vergonha?

Seminu é bom demais (risos). Se você soubesse a pressão que eu passei, que eu sofri naquela semana. E foi a decisiva do Campeonato Brasileiro de 2010. A foto saiu na quarta-feira e o jogo contra o Guarani era no domingo. Foi uma coisa que eu aprendi...

Acha que fez aquilo no momento errado?

Não. Estou acostumado com pressão. Só trouxe presão para mim. Também não ligo para o que falam de mim. Foi pressão de zoação dos companheiros. Colocaram a foto no meu quarto, na minha chuteira, me sacanearam no almoço, no jantar...

Faria de novo?

Não. Já fiz uma vez na França, mas lá é normal, o time inteiro faz calendário e tal. Mas não passa disso. Posar totalmente nu não me pega não. Ter ficado de sunga naquela foto já foi muito.

Falam que você abusa nos cremes e no cuidado com a aparência. O Fred é mais vaidoso ou mais goleador?

Goleador, pô! (risos). Não sou tão vaidoso assim como parece. O que eu passo é normal. Xampu, creme para o cabelo, que se eu não passar o meu cabelo vai no teto (risos), e cremes pro corpo.. desodorante, perfume, essas coisas.

Abraços a todos !!! E Ótima semana !!! 












segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Anzhi de Roberto Carlos e Eto'o poderá ter que mudar para Makhachkala, cidade natal do time e considerada o lugar mais perigoso da Europa.

 

Clube ainda não tem previsão para elenco trocar Moscou por Makhachkala, mas garante que motivo é falta de estrutura, não segurança

 

Num lugar quase sem atrações e considerado o mais perigoso da Europa, turistas são raros e um estrangeiro chama a atenção logo no desembarque no aeroporto. Mas para quem não fala russo ou um dos 30 idiomas do Daguestão, duas palavras são suficientes para se explicar e espalhar sorrisos na capital Makhachkala: futebol e Anzhi (cujo nome soa como “Anji”). O clube de Roberto Carlos e Samuel Eto'o fez a cidade transformar-se em mais do que fonte de notícias ruins. Ao mesmo tempo, por causa deles, o time mudou-se para Moscou. O Anzhi nunca foi menos daguestanês do que agora que ficou famoso. Uma contradição que clube e torcedores parecem concordar que é temporária. Ainda que ninguém saiba responder até quando.

– A cidade ainda não está preparada para receber os jogadores. Falta muita coisa, nós sabemos disso - diz Murad, um russo que se mudou para a Espanha há oito anos e voltou a Makhachkala para visitar a família e "ver o Anzhi jogar", como ele faz questão de acrescentar.
Murad vive em Getafe, na Grande Madri. Dizer que ele fez o caminho inverso de Roberto Carlos, que passou 11 anos na capital espanhola a serviço do Real Madrid, é motivo para enchê-lo de orgulho.

– Quando o Roberto Carlos acertou com o Anzhi meus vizinhos na Espanha perguntavam: "Não é de lá que você veio?". Agora todos sabem onde fica o Daguestão.
Criado em 1991, mesmo ano do fim da União Soviética, o FC Anzhi tem como grande feito o vice-campeonato da Copa da Rússia em 2001 e até um ano atrás disputava o Campeonato Russo com a missão de evitar o rebaixamento. Foi então que o homem mais rico do Daguestão, Suleiman Kerimov, de 45 anos, comprou o Anzhi com planos de transformá-lo no time mais poderoso da Rússia. De acordo com a revista Forbes, que anualmente publica a lista das pessoas mais ricas do planeta, Kerimov é o 118º colocado, com uma fortuna de mais de R$ 14 bilhões. Seus negócios já variaram de aviação e construção civil até petróleo e gás. Mas o investimento no Anzhi vai além do futebol.
Localizado às margens do Mar Cáspio no norte do Caucáso, o Daguestão tem 2,6 milhões de habitantes e é uma das áreas mais pobres da Rússia. Recentemente, foi apontado pela agência de notícias britânica BBC como o "lugar mais perigoso da Europa". Os frequentes atentados de fundamentalistas islâmicos que querem a separação da região são parte do problema. Os terroristas não têm dificuldade em recrutar jovens revoltados com a corrupção, falta de oportunidades e o envolvimento de autoridades com o crime organizado. Para piorar, as forças de segurança que deveriam combater o crime são acusadas por torturas, desaparecimentos e execuções.
Suleiman Kerimov é senador pelo Rússia Unida, partido do primeiro ministro e ex-presidente Vladimir Putin, que deve voltar à presidência do país nas eleições de março. Oligarcas alinhados com o governo – ou em busca de evitar problemas com ele – costumam investir em áreas menos favorecidas do país. O novo Anzhi é parte do projeto de modernizar o Daguestão e combater o extremismo.

– O futebol pode mudar a imagem da nossa região, pode transformar a cabeça das pessoas e mostrar a elas que a vida também irá mudar no futuro - afirmou o diretor geral do Anzhi, German Chistyakov, em entrevista a jornalistas ingleses levados a Makhachkala no fim de outubro a convite do clube.
Quando Eto'o foi contratado, em agosto, a organização não-governamental Human Rights Watch criticou os investimentos pesados no futebol dizendo que eles deveriam ser acompanhados por esforços parecidos em outras áreas. Sobretudo, segundo a ONG, o combate aos abusos cometidos pelas autoridades e forças de segurança no Daguestão.
Encontrar pessoas portando armas em Makhachkala não é tarefa das mais complicadas. Uma pistola custa menos de R$ 40 em lojas do centro da cidade. Alguns dizem que trata-se de uma antiga tradição do Cáucaso. Outros, que é para se proteger de criminosos.

– Como vocês chamam no Brasil aquela área sem segurança e com muitos problemas onde vivem as pessoas mais pobres? Favela, certo? Pois nós somos a favela da Rússia. Muita gente aqui ainda acha que precisa de uma arma para se defender – diz um jornalista local, que pediu para não ser identificado.
Apesar da insegurança na região, a versão oficial do Anzhi é a de que os jogadores vivem e treinam em Moscou por causa da falta de estrutura adequada para recebê-los na capital do Daguestão.
– Ainda não sabemos quando vamos nos mudar, mas as coisas em Makhachkala estão se transformando tão rapidamente que pode ser mais rápido do que se imagina. Mas temos tudo o que precisamos em Moscou e já nos acostumamos com a situação de viajar para jogar "em casa" – afirma Roberto Carlos
Suleiman Kerimov costuma estar presente às partidas do Anzhi em Makhachkala, mas poucos conseguem vê-lo já que ele se refugia no prédio localizado bem na direção do centro do gramado, uma espécie de área vip do estádio do Dínamo, com vidros fumê e seguranças à porta. Quando uma foto do oligarca aparece no telão, a torcida responde como se fosse um gol em final de campeonato.
Para os fãs do Anzhi na porta do estádio, as visitas do time da casa à cidade uma vez a cada duas semanas já não causam tanta estranheza.

– No dia em que anunciaram a contratação de Roberto Carlos as pessoas se olhavam como que perguntando: "é verdade mesmo?". Há quem ache estranho que os jogadores vivam em Moscou, talvez não sintam que a equipe seja tão local como antes, mas você não vai encontrar muitos que admitam isso. Talvez seja o preço a pagar para ter grandes craques aqui – diz Mohammed, com cachecol e bandeira do Anzhi, se espremendo para passar pelo detector de metais que tenta impedir a entrada de armas no estádio.