
Entrevista exclusiva do lateral do Roma Cicinho, falando como foi sua passagem pelo Real Madrid, seu atual momento no Roma e suas chances na selecao de Dunga. Imperdivel...
Em sua segunda temporada na Itália, Cicinho diz que sair do Real Madrid foi a melhor coisa que fez. Mas quer, como todo bom provinciano, voltar logo ao Brasil.
Como você avalia o inicio de segunda temporada da Roma?
Nós não tivemos um bom começo, vivendo um período de altos e baixos tanto no Campeonato Italiano quanto na Champions. O mais importante é que o time está adquirindo uma identidade bacana, voltando a jogar o melhor futebol, assim como nós terminamos a temporada passada. Não tem crise ainda, não.
Mas a equipe não ganha um Campeonato Italiano há sete anos. Como está a pressão por títulos?
A imprensa está caindo matando (risos). Ainda mais porque a Lazio, que é nosso principal rival, está em uma fase muito boa. A cobrança está sendo muito forte, então temos que vencer a todo custo. A torcida daqui é muito fanática, assim como no Brasil. Depois que eu saí do São Paulo, vivi dois anos tranqüilos no Real Madrid. Existe uma expressão que eles costumam dizer aqui: “Mi raccomando!” É o equivalente a: “Vamo lá, quero ver no próximo jogo!” Isso irrita às vezes, mas nós estamos tranqüilos. Estou feliz aqui e é isso que importa.
É bom contar com um elenco repleto de brasileiros (são oito no total)?
Eu tive sorte de encontrar vários brasileiros desde quando saí do Brasil. No Real tinha o Roberto (Carlos), Ronaldo, Robinho e o Julio (Baptista). A gente se sente em casa, bem “tranquilão” mesmo. Saímos para jantar sempre. Aqui tem uma churrascaria brasileira e nos reunimos lá. Os gostos são um pouco diferentes, é verdade. O Juan é o pagodeiro do Rio de Janeiro, o Doni é o rapper do time e eu sou o caipira (risos). Mas na comida é todo mundo mais ou menos parecido.
Como foi sua recepção na Itália?
Foi muito bacana. Fui recebido aqui por cinco mil pessoas no aeroporto. Dizem que o último que teve uma recepção dessas foi o Batistuta. Foi uma coisa que me surpreendeu bastante. No vestiário os jogadores me tratando muito bem, com igualdade e me ajudando muito. Isso foi fundamental para minha adaptação aqui na Itália.
E as comparações com o Mancini. Já acabaram?
Já controlei. No começo eles queriam que eu jogasse mais no ataque, e eu falei que não. Falei que se fosse para jogar no ataque eu iria embora. Mas o treinador sabia que eu tinha sido contratado como lateral e foi tudo numa boa. No entanto, depois dos três primeiros jogos eu tive que dar uma entrevista e avisar que eu era o Cicinho, não o Pelé, nem o Ronaldinho Gaúcho. Começaram a falar que eu não era tudo aquilo que esperavam e tive que explicar que eu era um jogador defensivo.
E o italiano? Já fala ou está mais difícil que o espanhol?
Estamos engatinhando. Eu e minha esposa estamos fazendo aulas duas vezes por semana. Aqui a gente é muito cobrado a dar entrevistas em italiano, mas eu falei que prefiro aprender primeiro para depois dar uma entrevista. Agora, para as pequenas coisas, dá para se virar legal.
Como foi eliminar Real da última Champions, seu ex-clube e um dos favoritos ao título?
Foi a melhor sensação do mundo. Foi um jogo no qual eu consegui jogar bem, fui muito elogiado tanto aqui (em Roma) quanto em Madri. Tem sempre aquele gostinho especial quando é o ex-clube e eu tive essa oportunidade bem cedo. Tinha acabado de sair do Real Madrid. É um gosto diferente, a gente faz como se fosse o jogo da vida, dar aquele algo a mais.
E reencontrar seus companheiros de clube, como Raúl, Casillas, van Nistelrooy. Como foi?
Foi normal. Nunca tive proximidade com os espanhóis. Ficava mais com os estrangeiros, caso do Zidane, Beckham, Woodgate, Gravesen. O Sergio Ramos foi o único espanhol com quem fiz amizade, que me cumprimentou como amigo. Ele é uma grande pessoa.
Falando em Madri, do que você sente mais falta dos tempos de Real?
Graças a Deus eu tive uma passagem ótima por Madri, ganhei um título (do Campeonato Espanhol) e um vice na outra temporada, mas saudade eu não tenho nenhuma, te juro. Se você conversar com o Julio Baptista você vai ver que é a mesma situação. Quando eu saí do Real eu fiz a escolha certa, não me sentia feliz ali. Eram muitos problemas internos, jogadores que falavam coisas para a imprensa. Foi uma coisa que me atrapalhou muito, já que eu nunca tinha convivido com isso. No Brasil todo mundo era amigo e ali era aquele ciúme.
Então os jogadores da Roma são mais humildes do que os do Real Madrid?
Com certeza. E este é um ponto muito positivo. Aqui não tem a briga de vaidades, todos caminham do mesmo lado.
Você acha que o Beckham, ex-companheiro de Real, vai se dar tão bem quanto você na Itália?
Tenho certeza. Ele é um grande jogador e uma ótima pessoa. Não tenho dúvidas de que vai jogar muito no Milan.
Por que quando está no Brasil você costuma dar uma passada no CT?
Vou ao São Paulo pelo carinho que tenho pelas pessoas que trabalham lá, alguns amigos que ainda jogam no clube. Não sou só eu que faço isso, muitos jogadores que por ali passaram acabam tendo esta atitude porque é um lugar no qual todos nos recebem de braços abertos. Temos que retribuir este carinho, mesmo quando estamos alguns poucos dias aí no Brasil.
Quando pretende voltar ao Tricolor?
Em breve, porque minha vontade de voltar é muito grande. Se fosse só por minha vontade, voltava hoje para o Brasil. Mas eu prefiro deixar o barco correr, não tenho uma data ainda.
Você acha que Maicon e Daniel Alves, os últimos convocados pelo Dunga, estão em melhor fase que você e, por isso, merecem mais a convocação?
Eu não acho que eles estão piores do que, nem eu melhor do que eles. É uma questão de confiança. O Maicon foi um jogador convocado pelo Dunga desde a sua primeira partida. Eu prefiro ficar trabalhando e, no momento certo, estar presente na seleção e dar meu máximo. O momento agora é de trabalhar para que eu possa fazer parte. Eu me sinto tão bem quanto eles. Já passou aquele momento de contusão, mas quem sabe o momento certo é o treinador e eu só tenho que respeitar e trabalhar.
Já conversou com o Dunga sobre sua situação? ?
Nunca tive a oportunidade de falar com ele e acho que isso não ajuda. Acho que o treinador é inteligente o suficiente para saber com o que ele pode contar e então não é uma conversa que vai ajudar. O Kaká teve um período de problemas com o Dunga, que ele conseguiu contornar. Eu nunca tive nenhum problema com ele. Não tem o que ficar falando, tenho sim que trabalhar para que ele possa se lembrar de mim.
Você tem 28 anos já, não é mais um garoto. Acha que isso te prejudica de alguma forma em uma vaga na Seleção, que tem como lema a renovação?
Acho que não tem nada a ver. O que me prejudicou foi minha lesão mesmo, fiquei sete meses fora, mas hoje eu estou bem e pronto para voltar em breve.
Você gosta de personalizar a mensagem de caixa postal do seu celular. Até quando foi para Espanha você gravou um “Usted llamo, Usted llamo a Cicinho...”. E agora? Está em italiano?
Não, eu mudei. Agora não tem, está o convencional mesmo. Ainda não dá para arriscar o italiano (risos).
E como todo bom interiorano deve gostar de hábitos um pouco diferentes dos daí de Roma. E como fica a pescaria, dá para fazer alguma por aí?
NEu gosto de pescar sim, mas aqui na Itália não dá. Não tem lugar para pescar.
Já tem até videogame de pesca, você conhece?
Olha até tem esses jogos aí, mas eu não curto muito videogame. A gente mata a saudade com muita moda sertaneja.
Qual é a banda do momento que não sai do seu rádio?
Tenho escutado muito Victor & Léo. Essa banda nova me deixa com muita saudade do Brasil.
E você conseguiu contagiar os italianos com seu jeito caipira de ser?
Eles preferem a tarantela deles. Não tem o que os mude. São de opinião própria. A minha ficou comigo mesmo.